OpenRAN@Brasil avança para fase de aplicações e realiza workshop presencial da Fase 3  

Nos dias 26 e 27 de março, pesquisadores e representantes de instituições executoras do Programa OpenRAN@Brasil (RNP, CPqD, Eldorado e Inatel) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) reuniram-se no primeiro workshop presencial da Fase 3 no CPQD, em Campinas.  

A nova etapa foca na expansão do testbed, que passa a operar em um modelo com múltiplas “ilhas” de experimentação. Instituições como UnB, UFRN, UFPA, PoP-RS/UNISINOS/UFRGS/UFCSPA/PUCRS e UFG passarão a integrar a infraestrutura já existente no PoP-RJ da RNP e no CPQD, formando um ambiente distribuído com conectividade de no mínimo 10 Gbps. Foram cerca de 40 participantes de 14 instituições diferentes. 

O testbed reforça, assim, seu posicionamento como uma plataforma de experimentação aplicada, onde diversas verticais – indústria 4.0, agricultura 4.0, saúde conectada, educação imersiva, cidades e campi inteligentes, jogos educacionais e sandbox regulatório – começam a ganhar forma em diferentes regiões do país.  

“Tivemos resultados relevantes na Fase 1 e, agora na Fase 3, a ideia é expandir para as demais regiões em uma rede conectada de Open RAN no Brasil. Com os resultados apresentados até o momento, o MCTI está tendo oportunidades de trocas e colaboração com americanos, japoneses e o mercado europeu. Temos no Brasil a capacidade de desenvolver tecnologia com a expertise de vocês, dos grupos de pesquisa das chamadas e parceiros que vão sendo atrelados”, afirmou, na abertura do evento, Rubens Caetano Barbosa de Souza, coordenador-geral de Inovação Digital do MCTI. 

Rubens Caetano (MCTI) destaca resultados do Programa OpenRAN@Brasil 

Da infraestrutura à aplicação: os projetos da Fase 3  

Ao longo do primeiro dia, foram apresentados a evolução do programa, assim como os fluxos de suporte e de atendimento do testbed OpenRAN@Brasil. Além da expansão física da infraestrutura, o programa também avança na incorporação de novos recursos, como uso de GPUs para aplicações com IA, suporte a diferentes pilhas de software Open RAN e expansão das capacidades de experimentação distribuída.  

Na fase 2, o programa avançou no desenvolvimento de um dos principais componentes do ecossistema Open RAN: um protótipo nacional de O-RU, bem como a criação de um ambiente para desenvolvimento de xApps e rApps – aplicações que viabilizam automação, controle e inteligência da rede. Esses avanços consolidaram a base tecnológica que sustenta a fase atual, orientada a aplicações em cenários reais. 

Um dos pontos centrais do primeiro dia foi a apresentação das aplicações selecionadas na chamada da Fase 3, cujo processo seletivo se deu em duas etapas – homologação de hospedeiros e seleção de aplicações – evidenciando a diversidade de casos de uso que serão implementados no testbed.  

No caso do GreenRAN, a ser desenvolvido na UFPA sob coordenação de Eduardo Cerqueira, a proposta combina sustentabilidade e monitoramento inteligente ao integrar sensores ambientais e análise de solo com aplicações de visão computacional. Em ambientes de campi, a solução avança para sistemas de vigilância baseados em vídeo e inteligência artificial, capazes de identificar situações de risco em tempo real. 

Já o Sentinel-5GO, coordenado por Augusto Neto na UFRN, irá operar como uma plataforma colaborativa de monitoramento urbano e ambiental. A aplicação articula diferentes dispositivos — como drones, robôs terrestres e sensores distribuídos — para apoiar desde ações de segurança pública até o acompanhamento de biodiversidade. Casos como o uso de VANTs em operações de defesa social e sistemas de rastreamento e análise de movimentação indicam um uso intensivo de conectividade e processamento em rede. 

No campo da mobilidade, o projeto OoC (Olha o Carro!), conduzido no testbed do CPqD sob a coordenação de Fábio Verdi da UFSCAR, explora aplicações V2X (vehicle-to-everything), com foco na proteção de usuários vulneráveis das vias e previsão de colisões entre veículos e pedestres ou ciclistas, a partir da troca de dados em tempo real. 

A lógica de cidades e campi inteligentes também aparece no CampusRAN, a ser hospedada no ambiente da RNP com coordenação de Dianne Scherly da UFF. A ideia de conectividade gamificada — em que os próprios usuários contribuem para a coleta de dados — se combina com soluções de segurança pessoal e dashboards de monitoramento, criando uma camada de interação entre infraestrutura e comunidade. 

Na área da saúde, o OpenHealth5G, que ficará nos hospedeiros do Sul sob coordenação de Juliano Wickboldt da UFRGS, estrutura aplicações que vão da telessaúde emergencial, com suporte remoto a equipes de campo, até ambientes de ensino e simulação, conectando instituições e profissionais em cenários de aprendizagem híbrida. A proposta reforça o papel do 5G como habilitador de serviços críticos, especialmente em contextos em que tempo de resposta e qualidade de conexão são determinantes. 

Já o HADES 5G, a ser desenvolvido na UFG sob coordenação de Flavio Teles, avança sobre operações críticas ao integrar robôs geolocalizados e gêmeos digitais, com aplicações na área de Agro 4.0. Nessa aplicação, um operador externo delimita um perímetro virtual em uma fazenda, onde, a partir dessa área digital será realizado o monitoramento agrícola e de pessoas, visando a segurança no trabalho. Trata-se de um tipo de solução que exige alta confiabilidade de rede, um dos desafios centrais do Open RAN. 

Por fim, o MEI5GO, coordenado por Kleber Vieira, da UFG, explora o uso de metaverso e vídeo volumétrico em experiências educacionais imersivas. Um dos casos de uso apresentados focou no ensino de redes de computadores, no qual estudantes, utilizando óculos de realidade aumentada, poderão enxergar uma representação visual da propagação eletromagnética de antenas 5G. A iniciativa sinaliza caminhos possíveis para o uso do 5G em ambientes de ensino avançado. 

Complementando esse conjunto, o Sandbox Regulatório surge como um elemento transversal, voltado à avaliação dos resultados técnicos e à construção de recomendações alinhadas a organismos internacionais, como ITU – International Telecommunication Union. A iniciativa, sob coordenação de Priscila Solis (UnB), busca posicionar o Brasil como ator relevante na discussão global sobre Open RAN, ao mesmo tempo em que prepara as bases para um ambiente regulatório mais aderente à inovação. 

Governança, conformidade e disseminação 

O segundo dia do workshop foi dedicado ao alinhamento operacional, com foco em execução administrativa, financeira e prestação de contas. Outro eixo que ganhou destaque foi o de disseminação. As ações apresentadas reforçam que o OpenRAN@Brasil não se limita ao desenvolvimento tecnológico, mas também atua como vetor de circulação de conhecimento, seja por meio de artigos científicos, participação em eventos, produção de conteúdos ou articulação institucional. Foram apresentados o novo site do programa e também o primeiro whitepaper produzido na Fase 3, que conta a evolução do OpenRAN@Brasil.  

A programação incluiu ainda uma visita técnica à infraestrutura do CPqD, permitindo aos participantes conhecerem de perto os componentes do testbed e suas capacidades operacionais.  Com a Fase 3, o programa deixa de operar apenas como um ambiente de testes centralizado e passa a se consolidar como uma infraestrutura nacional de experimentação em redes abertas, com capacidade de articulação entre pesquisa, desenvolvimento e aplicação em escala. 

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