
Artigo destaca resultados de desempenho com 1,4 Gbps de throughput agregado e menciona o testbed OpenRAN@Brasil em contexto de pesquisa e inovação em redes abertas
A RingZero, startup que participou do programa OpenRAN@Brasil e utilizou o testbed da iniciativa em sua trajetória de desenvolvimento, apresentou no Netdev 0x1A o artigo Scripting Netfilter with Lua: A Cooperative Kernel-Userspace Pipeline. O trabalho reúne dois elementos de especial interesse para o programa: de um lado, os resultados de desempenho obtidos com a solução proposta; de outro, a omportância do testbed OpenRAN@Brasil no trabalho desenvolvido pela startup, bem como a relação do trabalho apresentado com publicações do programa.
O Netdev 0x1A foi a edição de 2026 da conferência técnica dedicada ao subsistema de rede do núcleo do Linux e ao uso de suas interfaces no espaço de usuário. O evento foi realizado na Università Roma TRE, em Roma, na Itália, entre os dias 13 e 16 de julho de 2026.
Assinado por Lourival Vieira Neto e Marcel S. A. de Moura, da Ring Zero Networks, em coautoria com Md. Shehar Yaar Tausif, Firas Shaari e Arif Alam, o artigo apresenta uma arquitetura cooperativa entre kernel e espaço de usuário para filtragem e classificação de tráfego em pontos de acesso Wi-Fi. A proposta busca realizar inspeção de tráfego de camada 7 sem recorrer à interceptação TLS tradicional, utilizando metadados como DNS, HTTP Host e TLS SNI para classificar fluxos de rede.
Desempenho com latência preservada
O principal destaque do trabalho está nos resultados experimentais apresentados pelos autores. Segundo o artigo, a arquitetura alcançou 1,4 Gbps de throughput agregado, mantendo latência equivalente à de uma ponte simples em diferentes cenários de teste. Em termos práticos, isso indica que a solução conseguiu incorporar mecanismos avançados de classificação de tráfego sem impor perdas relevantes de desempenho ao encaminhamento dos pacotes.
Os testes foram realizados em um ponto de acesso Wi-Fi 6 baseado em OpenWiFi, com medições conduzidas em ambiente controlado. O estudo comparou três condições: uma configuração de referência em ponte simples (baseline), a solução Dome em operação normal e uma versão sem o mecanismo de cache de veredito. Os resultados mostram que, com o cache ativo, a solução acompanhou de perto a referência tanto em throughput quanto em latência, enquanto a ausência desse mecanismo provocou degradação acentuada, especialmente em cargas com objetos menores.
Em um dos cenários descritos no artigo, a solução manteve desempenho praticamente equivalente ao da configuração de referência em diferentes tamanhos de resposta, ao mesmo tempo em que preservou o tráfego não inspecionado. Em uma validação cruzada com ferramenta independente, os autores registraram que o sistema acompanhou o baseline com diferença de cerca de 3%, enquanto o tráfego de fundo não inspecionado permaneceu em 940 Mbps, sem impacto mensurável quando o mecanismo operava com cache ativo.
Arquitetura proposta evita interceptação TLS
O artigo descreve uma alternativa à abordagem convencional de Secure Web Gateway, frequentemente baseada em interceptação TLS e terminação de conexões criptografadas. Em vez disso, a solução faz uso de informações disponíveis em metadados de DNS, requisições HTTP e no handshake TLS para classificar fluxos, reduzindo a necessidade de processamento criptográfico por sessão e evitando a distribuição de certificados para dispositivos clientes.
A arquitetura combina componentes em Lua, uma linguagem de programação leve, executados tanto no núcleo do Linux (kernel) quanto no espaço de usuário, apoiando-se no framework Lunatik, que permite executar scripts Lua dentro do kernel, e em novas interfaces (bindings) desenvolvidas para interação com o subsistema de rede do Linux. Segundo os autores, essa composição permite classificar o fluxo no primeiro contato e, a partir daí, aproveitar o cache em nftables, sistema nativo do Linux para filtragem de tráfego, para que os pacotes seguintes sigam pelo plano de dados nativo, sem retornar continuamente à lógica de inspeção em Lua.

Referências ao OpenRAN@Brasil e à RNP
Além dos resultados técnicos, o artigo menciona o testbed do programa OpenRAN@Brasil e cita trabalhos ligados ao programa e ao ecossistema brasileiro de pesquisa e desenvolvimento em redes abertas. Entre as referências listadas estão o minicurso Do conceito à prática: Softwarização e orquestração de redes Open RAN no testbed OpenRAN@Brasil e o estudo Testbed OpenRAN Brasil como plataforma de inovação aberta para desenvolvimento tecnológico da indústria. O texto também registra agradecimento à RNP pelo apoio contínuo.
“A apresentação realizada em um fórum técnico internacional reforça a relevância do testbed OpenRAN@Brasil como infraestrutura de experimentação aplicada e desenvolvimento tecnológico, neste caso, apoiando o desenvolvimento realizado pela startup. No caso da RingZero, essa visibilidade é particularmente significativa por envolver uma startup que integrou o programa e utilizou o ambiente ao longo de seu processo de amadurecimento tecnológico”, relata o coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento da RNP, Liucas Bondan.
O artigo completo está disponível em:
https://netdevconf.info/0x1A/sessions/talk/scripting-netfilter-with-lua-a-cooperative-kernel-userspace-pipeline.html
Entenda os termos do artigo
Handshake
Etapa inicial de uma comunicação em rede em que os sistemas trocam informações para estabelecer a conexão.
Throughput
Quantidade de dados que um sistema ou rede consegue transmitir em determinado período.
Kernel
Núcleo do sistema operacional, responsável por gerenciar recursos essenciais, como memória, processamento e comunicação com hardware.
TLS
Protocolo de segurança usado para proteger comunicações na internet por meio de criptografia.
TLS SNI
Informação enviada no início de uma conexão TLS que indica o nome do servidor de destino, podendo ser usada para apoiar a classificação de tráfego.